Homenagem a Álvaro Cunhal<br> na Festa do PCE
Intervenção
de Albano Nunes
O Partido Comunista de Espanha, cuja Festa se realizou recentemente em Madrid e que o nosso jornal referiu em notícia na passada semana, promoveu uma homenagem a Álvaro Cunhal. Na sessão, tomou a palavra o camarada Albano Nunes, membro do Secretariado e da Comissão Política do Comité Central do PCP. O dirigente português, que transmitiu ao PCE e aos presentes as saudações calorosas e fraternais do Partido e do seu Secretário-geral, Jerónimo de Sousa, proferiu a seguinte intervenção que transcrevemos na íntegra:
É muito grato a um comunista português representar o seu Partido nesta iniciativa que evoca a figura do camarada Álvaro Cunhal.
Desde logo pelo que ela traduz quanto às relações fraternais existentes entre o PCP e o PCE, relações que ao longo da história conheceram sem dúvida dificuldades e momentos menos bons, mas que no essencial se caracterizaram sempre pela amizade, o respeito mútuo, a cooperação e a solidariedade recíproca. Pelo nosso lado consideramos sempre e continuamos a considerar que diferenças nas condições de luta e nas tarefas imediatas, que inevitáveis diferenças de opinião e divergências em relação a complexos problemas do movimento comunista e do desenvolvimento mundial, não devem impedir a cooperação e a solidariedade internacionalista dos comunistas de todo o mundo.
Depois pelo que esta iniciativa representa de apreço pela figura do camarada Álvaro Cunhal, que durante muitos anos foi o principal construtor e o mais destacado dirigente do nosso Partido e que, tendo-nos deixado fisicamente, continua presente entre os comunistas portugueses com o seu exemplo de uma vida de coerência inteiramente consagrada à causa dos trabalhadores e aos ideais do socialismo e do comunismo que desde muito jovem abraçou. A obra política, teórica e artística que nos legou é de um inestimável valor para a difícil luta que travamos e para a educação das novas gerações de militantes no pensamento marxista-leninista criador, porque profundamente ligado aos trabalhadores e ao movimento da vida, que foi o seu. O seu livro “O Partido com paredes de vidro” sobre o partido que somos e queremos ser é uma obra de valor inestimável.
Por isso agradecemos as palavras amigas que aqui ouvimos.
A história do PCP, particularmente após a reorganização de 1940/41 de que, no quadro de uma notável pleiade de revolucionários, ele foi um dos principais obreiros, é inseparável da inteligência, dedicação, firmeza ideológica e coragem física de Álvaro Cunhal, da sua profunda confiança no socialismo e no comunismo, na sua ilimitada dedicação à classe operária e ao povo.
Foi com ele e com a sua contribuição de excepção que o PCP se enraizou decisivamente entre a classe operária industrial e agrícola e se tornou verdadeiramente no partido de vanguarda dos trabalhadores;
foi com ele que o PCP se dotou de um sólido aparelho clandestino, capaz de resistir aos mais violentos golpes da repressão fascista, mantendo sempre a sua direcção e as tipografias do seu órgão central, o”Avante!”, no interior do país;
foi com ele que o PCP se tornou no grande partido nacional e na força aglutinadora e dirigente de grandes movimentos unitários e grandes batalhas democráticas – combinando a acção legal, semi-legal e ilegal – contra a ditadura fascista, pelo trabalho, pelo pão e pela paz;
recorrendo quando necessário à acção armada, de que a ARA foi a mais importante expressão, mas considerando sempre a luta de massas como o “motor da revolução”, foi com Álvaro Cunhal que o PCP organizou e conduziu as grandes lutas operárias, camponesas e da juventude que juncaram os anos negros da ditadura e que tiveram um papel determinante no derrubamento do fascismo e na revolução libertadora do 25 de Abril;
foi com Álvaro Cunhal que, dando um firme combate de princípio a diferentes expressões de oportunismo de direita e de “esquerda”, incorporando na sua prática de funcionamento baseada no centralismo democrático as ricas experiências do próprio Partido, insistindo sempre no valor do trabalho colectivo, que foi possível preservar a coesão e a unidade do Partido ao longo de tantos acidentes, viragens e tempestades revolucionárias e contra-revolucionárias, incluindo perante a desagregação da URSS e as dramáticas derrotas do socialismo;
foi com ele e com a decisiva contribuição da sua rara arte política, que foi possível, procedendo com os critérios de classe do marxismo-leninismo à análise concreta da situação concreta de Portugal, acertar na caracterização da realidade sócio-económica portuguesa, discernir os seus importantes traços específicos (como a coexistência de um grande atraso no desenvolvimento das forças produtivas com um elevado grau de concentração monopolista ou a realidade de um país simultâneamente colonizador e colonizado), definir a etapa da revolução como democrática e nacional, elaborar no VI Congresso de 1965 um Programa que a prática veio a confirmar inteiramente nos seus traços essenciais;
foi com ele e com a sua contribuição prestigiada e internacionalmente reconhecida que consolidamos e desenvolvemos a política internacionalista do nosso Partido, política que sempre deu prioridade ao movimento comunista, mas que simultâneamente assumiu uma das suas mais elevadas expressões nas relações de profunda amizade e cooperação com os movimentos de libertação das antigas colónias portuguesas – Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste – relações que contribuíram decisivamente para que a libertação do povo português do fascismo e dos povos africanos do colonialismo se tornassem historicamente inseparáveis;
foi com ele que, depois dos tempos exaltantes da revolução, o PCP se afirmou uma vez mais como a grande força da resistência às políticas de recuperação capitalista de direita que PS e PSD, em alternância, associação ou “convergência estratégica” como agora se afirma, que têm vindo a destruir sistematicamente as realizações de Abril, a democracia e a própria soberania.
Muito mais poderia ser dito. Não fique porém qualquer ideia de que, valorizando justamente o papel histórico de Álvaro Cunhal na vida do seu Partido e do seu povo, o colocamos acima, separando-o, do colectivo dirigente, do Partido, da classe e das massas. Não deve haver qualquer dúvida de que se Álvaro Cunhal se ergueu tão alto é justamente porque nunca se separou nem deixou que o separassem, mesmo quando preso e sujeito às mais duras condições de isolamento (o que aconteceu durante quase oito anos seguidos no quadro de uma das suas prisões que durou mais de onze anos), daquilo que foi sempre a fonte de inspiração da sua criatividade artística, do seu criativo empenhamento revolucionário, do seu coerente e digno modo de estar na vida, ou seja precisamente a direcção colectiva, o “grande colectivo partidário” como caracterizava o Partido, a classe operária a quem a nossa opção marxista reconhece como o principal sujeito da superação revolucionária do capitalismo, as massas populares sempre e sempre o grande e necessário protagonista da transformação social e obreiras da sua própria libertação.
Duas anotações mais para terminar esta breve contribuição acerca da vida e da obra daquele que durante décadas foi justamente o mais conhecido rosto do PCP e símbolo nacional e internacionalmente reconhecido tanto da heróica resistência do povo português a uma ditadura de quase cinquenta anos como da sua revolução libertadora.
A primeira, que de modo algum podia ficar esquecida neste ano em que se assinalam 70 anos sobre a vitória da Frente Popular e o inicio da Guerra Civil, para lembrar a participação directa de Álvaro Cunhal, em terras de Espanha, nos grandes combates em defesa da República e da revolução contra os bandos fascistas. O seu romance, “A casa de Eulália”, publicado sob o pseudónimo de Manuel Tiago, constitui um belo testemunho de quem, com o seu Partido, partilhou apaixonadamente as esperanças, o heroísmo e o drama de um povo que a História colocou na primeira linha da Resistência ao terror fascista. Nos dias de hoje, quando de novo a violenta ofensiva exploradora e agressiva do imperialismo faz correr grandes perigos para a humanidade, mais necessário se torna evocar a generosidade e a valentia dos comunistas e do povo de Espanha que há 70 anos causaram a admiração de todo o mundo progressista e evocar também, no que ao camarada Álvaro Cunhal respeita, o seu profundo apego ao internacionalismo, componente fundamental, a par do patriotismo, da identidade comunista do PCP.
A segunda anotação para lembrar quanto era profundamente estranha ao camarada Álvaro Cunhal qualquer manifestação de personalismo e de culto da personalidade e, sobretudo, a decisiva importância que sempre deu ao papel do colectivo e ao estilo de trabalho colectivo na construção e funcionamento do Partido e da acção revolucionária. Procuramos ter isto sempre bem presente e vivo na nossa acção. Mas a valorização do colectivo, tal como da classe e das massas, nunca levou o PCP, tal como o camarada Álvaro Cunhal sempre insistiu, a diluir ou apagar o papel do indivíduo e da sua contribuição própria. E a contribuição de Álvaro Cunhal – como homem e como revolucionário, como dirigente comunista e como artista, como patriota e como internacionalista, nas múltiplas facetas em que a sua riquíssima e profundamente humana personalidade se manifestou – foi na realidade muito grande, não apenas para o PCP e Portugal, mas para o movimento comunista e revolucionário internacional e o pensamento revolucionário em geral.
È pois com alegria que nos associamos e vos agradecemos esta homenagem ao nosso camarada Álvaro Cunhal, confirmando o profundo empenho do PCP no estreitamento das nossas tradicionais relações e desejando ao PCE e a todos os seus militantes empenhados no seu fortalecimento e na afirmação dos valores e do projecto comunista, os melhores sucessos.